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Crialismo e a ''Arte Preta'': A voz para o cotidiano periférico através das artes plásticas

  • 4 de nov. de 2022
  • 5 min de leitura

Durante muito tempo as exposições e espaços destinados para divulgação das artes plásticas foram mundialmente constituídos pelo classicismo acentuando o estilo Barroco e o neoclassicismo, com obras em que a harmonia, a elegância e a proporção determinavam a qualidade daquilo que se venderia na categoria de artes plásticas. Nota-se neste período a necessidade de retratar os aspectos religiosos cristãos – mediante a predominância incisiva do cristianismo – e a benevolência dos artistas com a burguesia, afinal seria esta classe social a responsável não só pela compra, mas pela autorização imediata da propagação da arte e por ser o único ‘’assunto’’ no qual faria sentido retratar naquele período.

Partindo para o século XX, a necessidade e o cotidiano se diferem totalmente, e conforme a ‘’arte retrata a vida’’ isso passa a influenciar e dar caminho para as diversas formas de retratação do cotidiano; século este marcado pelas profundas mudanças históricas, as quais afetaram consideravelmente o comportamento político-social. Nasce aqui a visibilidade para as diferenças entre a alta burguesia e o proletariado, dando força ao capitalismo e possibilitando o surgimento dos primeiros movimentos sindicais. Assim, os movimentos e as tendências artísticas como o Expressionismo, Fauvismo, Cubismo, Futurismo, Abstracionismo, Dadaísmo, o Surrealismo, a Op-art e a Pop-art agora se preocupam em relatar a ambiguidade do homem contemporâneo, nascendo o Modernismo inicialmente e, por volta da segunda metade do século XX, a Arte contemporânea e/ou o pós-modernismo.

O fato é que em nenhum desses períodos históricos artísticos explorou verdadeiramente as vertentes culturais que se originam dentro de comunidades, as famosas favelas. Do contrário, não é correto afirmar que não existiu nenhuma personalidade responsável por, de certa forma, retratar o cotidiano periférico. Nomes como Jean-Michel Basquiat deram notoriedade para o assunto, mas mesmo que alguns artistas trouxessem para si a necessidade de pautar a favela e o ‘’favelado’’ em suas obras, o assunto sempre foi singular na arte devido ao preconceito e discriminação.

Ainda em período pós-modernista e devido a emancipação do acesso a internet em zonas pobres, os moradores periféricos passam a ter acesso a redes sociais e com isso trazem para o si o estudo de toda forma de arte plástica, fato que não só influência o nascimento de jovens artistas, mas como também populariza a ideia de criar um movimento que enfim quebre o paradigma do clássico. Nasce o Crialismo, e em consequência, a Arte Preta.


O CRIALISMO

Movimento originário do Rio de Janeiro, traz enfim o conceito de abordar sobre o dia a dia da periferia e seus moradores, assim como as influências de outros pilares da cultura periférica, como a música (RAP).

Guilherme Lima, jovem residente de Jacareí, é um dos nomes que trazem suas obras a ‘’vivência do favelado’’ sem se prender a padrões estéticos. Guilherme diz desenhar desde criança, e que inicialmente era apenas um Hobbie, mas que com passar do tempo notou o talento e enxergou a possibilidade de viver disso. Quando perguntado sobre suas influências antigas, o jovem artista diz ter tido inspirado em Leonardo da Vinci, mas que pelo pintor e inventor retratar outra forma de vida, com ideias e ideais diferentes das habituadas por Guilherme: ‘’ [...] você aprende na escola e sabe que ele era brabo, fez a Monalisa, mas não tem uma Monalisa no meu dia a dia. Entendeu? Então para mim é muito mais relevante eu estudar a mulher que faz um moleque jogando bola, para mim é mais perto da minha realidade. ’’

Ao ser questionado sobre a possibilidade de as redes sociais terem criado a existência de uma rede que une todos os artistas independentes em um só conceito, que é justamente a criação de um movimento artísticos visual e periférico, o artista respondeu:

‘’Eu não tinha a cultura de ir em uma galeria de arte, então nunca ia encontrar, se não fosse essa globalização não ia ter encontrado as ideias deles. Talvez sem as redes sociais acredito que eles não seriam os artistas que são hoje, eu não seria o artista que eu sou hoje. Porque é muito importante você manter suas referências, para você ter uma ideia do que está se baseando. Às vezes você quer fazer um ‘bagulho’, mas não sabe como. Você quer fazer um moleque lendo livro, mas como vai ser? aí olha no Instagram e decide como vai ser a arte. É importante demais, a internet deixa as coisas mais palpáveis. ’’

Lima, diz que o movimento artístico já existe há algum tempo, mas que não sabiam o nome certo para intitular, e que acredita sim no aumento da visibilidade daqui há algum tempo.

‘’O Crialismo está aí, é a junção de cria com realismo. Os ‘crias’ (aqueles que nascem na favela) que retratam nossa realidade. É um movimento que está acontecendo, mas está bem no início, desde antes da pandemia em 2018, mas a chegada desse nome foi por conta do Alencar com o ‘Muito Cria’, a gente passou a se identificar mais. Porque até então sabíamos que tinha o movimento, mas não sabia o que era, no meio da arte a gente precisa muito do cânone para falar o que é arte. Então está se acontecendo o movimento das periferias do Brasil, a nossa realidade não a da Globo, do Datena, nas novelas que é sempre o papel de alguém servindo o outro. Não é uma realidade bonita. Está acontecendo sim o movimento, vocês ainda vão ver muito nos livros de história. É atual, importante, as marcas mundiais já viram, é questão de tempo, de grãozinho em grãozinho, vou nas escolas, um parceiro fala, a gente vai semeando o movimento. ’’

Não só Guilherme, mas outros artistas como Allencar, Weslhey Nascimento e Eduardo Ribeiro já contam com os primeiros avanços para que o movimento se concretize e torne-se parte histórica cultural do século XXI.


A ARTE PRETA

Ainda mais discriminada do que o próprio Crialismo, a arte preta – assim chamada devido a forma de retratação da pele negra e sua valorização – veem ganhando mais espaço na Internet, sendo acompanhada de artistas que são alvos de racismo e ódio, mas que se manifestam através de quadros onde buscam ao máximo trazer a realidade.

Tháila Moraes dos Santos, residente de Sertãozinho, diz ter sido influenciada também desde criança através da cultura negra e periférica, por meio de artes, músicas, danças, convenções de carros e entre outros. A jovem artista, comentou sobre a importância de retratar o cotidiano do negro (A) e periférico na arte, para ela; ‘’é muito importante, para que as próprias pessoas de comunidade se sintam incluídas e vistas como algo maior mostrando a realidade como algo comum, pois muitas pessoas não sabem ou não compreende a realidade periférica. ’’ Tháila crê que haja mais pessoas fazendo este tipo de arte, e que parte da inspiração para a arte digital são de pessoas negras que apresentam esse cotidiano.

Questionada sobre o acesso à cultura para as crianças e jovens das comunidades, a artista respondeu:

‘’Os jovens foram conseguindo mais acesso à cultura na periferia por meio de muitos projetos de música, arte e etc. eu mesma participei de muitas atividades que estavam disponíveis no meu bairro, porém mesmo com toda essa atenção e tecnologia, os jovens não têm muito reconhecimento e moral do que um famoso teria, mesmo conseguindo fazer as mesmas coisas. ’'

Para todos aqueles que estão inseridos nestes novos movimentos artísticos, o caminho para que isso se flexibilize ainda é longo e duradouro, mas não distinto. Exposições como a Expo Arte Sp – produzida pela Art Lab Gallery – buscam promover essa nova promessa, mas ainda assim o nicho de lugares que buscam colocar as telas e esculturas em público ainda é pouco, devido ao fato do preconceito ainda ser incisivo no grande púbico. Enquanto não há ao certo grandes investimentos e patrocínios para exposições exclusivas e inclusivas do Crialismo e Arte preta, os criadores contam com sessões isoladas em espaços reservados.


Foto de capa: Divulgação/Instagram (manolimaa)

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