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O Aumento na visibilidade da cultura periférica

  • 7 de set. de 2022
  • 6 min de leitura

Atualizado: 15 de nov. de 2022

Com a chegada do Neoliberalismo em 1990 trazendo consigo a ideia econômica conversadora e embasando seus pensamentos em redução da participação estatal na economia, surge o outro lado da moeda caracterizado pela privatização dos serviços públicos, o agravamento da distribuição de renda, o desemprego, a precarização do trabalho e o ataque aos direitos sociais. A margem da sociedade, a população periférica se encontrou cada vez mais distante do que seria o acesso democrático aos fragmentos sociais como educação, saúde e então a cultura.

Distantes e sem acesso a qualquer elemento cultural popular da época, os moradores da periferia tiveram a necessidade de desenvolver seus próprios parâmetros culturais além dos hábitos e costumes, sendo alguns desses parâmetros a música e a arte, aumentando nessa época coletivos de RAP como Racionais MC’s, RZO, Trilha Sonora do Gueto, Planet Hemp, Facção Central ou MC’s como Sabotage, Marcelo D2, MV BILL, Thaíde, Rappin Hood e Dina Di. O Funk ainda era mais presente, sendo alavancado pelos influentes Junior e Leonardo, Cidinho e Doca, DJ Marlboro, Mc Marcinho, Claudinho e Buchecha, Mr. Catra e próprio Furacão 2000, todos esses com a principal característica: relatar a realidade diária periférica e enfatizar seus costumes e gostos. Ainda nesta mesma década o HIP-HOP tornou-se a principal característica do que se entendeu pela cultura periférica. O contraponto disso tudo: a marginalização.

Na mesma linearidade em que esta cultura crescia se emancipando da cultura popular vigente da época, a repreensão ocorria na mesma intensidade. O fato curioso: esta repreensão sempre foi combustível para produções artísticas periféricas. Na medida em que os moradores não tinham dinheiro para estarem dentro de estabelecimentos como museus, exposições ou feiras, estes mesmos produziram suas artes nos prédios, casas e paredes pelas cidades como podemos notar nos grafites e pichações pelos prédios de São Paulo. No caso da música, pouco se tinha gravadoras e/ou estúdios voltados para o RAP e o FUNK, contribuindo para o crescimento independente e a criação de batalhas de rima localizadas dentro de comunidades. Na moda também não foi diferente, a valorização de marcas e a inflexibilidade econômica deixou para os moradores o pensamento de obter as roupas visadas como apenas um sonho distinto, gerando a necessidade de criarem seus próprios estilos com o que conseguiam ter em mãos. Como resultado de uma cultura criada sem visibilidade da mídia e por não estarem inseridos no que era dito como ‘’popular’’, nasce o preconceito que tanto violentou esta cultura, exemplo disso o ano de 1999 quando o Estado do Rio de Janeiro criou a então ''CPI do Funk'' com a ideia de investigação aos bailes funks por violência, drogas e desvio infanto-juvenil. A CPI - que não encontrou provas - criou a Lei estadual 3.410/2000 com regulamentos voltados a obrigações aos organizadores desses bailes


REVIRAVOLTA

Após 3 décadas, o preconceito e a marginalização não deixaram de ocorrer, o que ocorreu durante essas décadas até então é o aumento exponencialmente dos fragmentos dessa cultura e a abertura do mercado cultural para todas as produções, muito do que se entende por cultura popular agora é contribuição dessas mesmas produções.

O Doutor em literatura Brasileira e professor da Universidade de Pernambuco Acauam Oliveira, em entrevista para o Jornal da USP no Ar, revelou crer que o Brasil possui tradição de incorporar elementos marginalizados até certo ponto.

Ao analisar o que está em alta nos últimos 10 anos e as ações voltadas a este meio, é notável o contraste de crescimento;


MÚSICA

Em um ranking de ritmos mais ouvidos no Brasil, hoje o RAP e o Funk se encontram como sendo um dos gêneros musicais de maior acesso em streamings como Spotify. Até então o sertanejo estava classificado como de maior acesso, sendo preferência de 37% da população.

Baseando-se nos dados apurados através do Spotify, a plataforma registrou 286 milhões de assinantes no primeiro trimestre de 2020, com crescimento de 31% em comparação ao ano anterior. Em consequência, entre os gêneros mais consumidos está o Funk que cresceu 51% desde 2014. Os funks não se compactuam apenas em solo brasileiro, as playlists do gênero entre os anos 2016 e 2018 cresceram 4.694%, estando entre as 200 músicas mais ouvidas em 51 países, classificando-se entre Estados Unidos, Portugal e Argentina.

Para o RAP, que obteve um crescimento de 46% em relação a 2017, podemos observar o número de ouvintes mensais de alguns artistas no Spotify até a data dessa matéria:


Gráfico por Hábito

ARTE

Arte por Guilherme Lima

Através das redes sociais - em especial o Instagram - surgem artistas independentes em alta, possibilitando a melhor divulgação de obras pessoais. O desenvolvimento das artes plásticas se voltou para o dia a dia periférico emergindo cada vez mais obras caracterizadas pelo tema, cujo artistas como Guilherme Lima e Weslhey Nascimento contribuem para o aumento de seguidores e visualizações nos posts com artes periféricas em pauta. Esse auxílio de redes sociais possibilita que a visibilidade artística e o mercado online como a aindacompany.com abram caminho para que essa vertente da cultura periférica saia dos campos online e adentre enfim a exposições que sequer eram visadas, como o caso da Expo Arte SP que em 2021 elaborou a feira de artistas independentes contando com a presença de Edu Ribeiro, também artista plástico.

Saindo dos campos online e migrando para as ruas que sempre foram o principal palco para a arte periférica, a alta do grafite e das pichações não deixou de existir. Ainda atraindo muitas críticas e censuras, surge um fio de esperança com a criação de projetos sociais voltados a esta forma de arte, como da prefeitura de Jundiaí que teve como iniciativa a criação de uma oficina online e gratuita de grafite com a artista plástica Gika, destinada para jovens com mais de 14 anos. A atividade faz parte de um projeto que visa a democratização do acesso ao grafite, prezando pela descentralização das intervenções pelos bairros de São Paulo. É importante ressaltarmos, como contraste, a ação do ex-prefeito e ex-governador de São Paulo João Doria em 2017 com a criação do projeto Cidade Limpa, em proposta de remover os grafites espalhados pelos bairros da cidade, deixando apenas oito espaços livres para grafitar, ambos definidos pela Secretaria Municipal de Cultura. Ação essa que começou com a remoção dos grafites da Avenida 23 de Maio.


CULTURA PERIFÉRICA NA MÍDIA

Quando ‘’Cidade de Deus’’ foi indicado ao Oscar em 2004 ou até mesmo ao Globo de Ouro, percebeu-se que falar sobre as questões periféricas – sejam elas boas ou ruins – agregava tanto quanto trazia impacto a questão audiovisual, ou seja, quanto mais se fala em cultura periférica, maior e mais acessada a mesma será. Partindo desse pressuposto, já 2008 o programa Manos e Minas oficializado na grade da TV Cultura após o sucesso no Metrópolis, trouxe em primeira mão a cultura periférica para a rede aberta, dando ponto e vírgula para o caminho da cultura periférica na mídia. Não inconscientemente, cada vez mais as novelas e obras televisivas passaram a abordar e retratar a favela e seus hábitos. Em ordem cronológica: ‘’Partido Alto’’ (1984), ‘’Pátria Minha’’ (1994), ‘’Vidas Opostas’’ (2006), ‘’Duas caras’’ (2008), ‘’Lado a Lado’’ (2012),’’Salve Jorge’’ (2013) e ‘’I Love Paraisópolis’’ (2015) são exemplos de como se tornou hábito a criação de novelas nesse nicho.

A chegada da democratização do acesso à Internet nas comunidades permitiu os moradores a usarem não só como meio comunicacional ou de entretenimento, mas também como ferramenta, agora havia ficado mais fácil divulgar as músicas, poesias, artes e a popularizar o linguajar através da interação nas redes sociais. É neste meio que o canal de funk Kondzilla se uniu ao serviço de streaming Netflix para criar a série ‘’Sintonia’’ cujo embasa sua história em um jovem periférico na busca por se tornar um MC famoso, mergulhando sobre a realidade nas favelas de São Paulo. Em outubro de 2021 a série estava no Top 10 mundial de séries mais assistidas na plataforma.


VEREDITO

Para professora de Letras, Daniela Diana;

A cultura popular representa um conjunto de saberes determinados pela interação dos indivíduos. Ela reúne elementos e tradições culturais que estão associados à linguagem popular e oral.

Enquanto cultura erudita;

Já a cultura erudita, considerada “superior”, é eleita como a mais “culta”. Ou seja, ela é produzida e apreciada por indivíduos que possuem maior poder aquisitivo (elite) e por isso, é mais restrita.
A cultura erudita, diferentemente da cultura popular (que se forma pela convivência das pessoas), é elitizada e demanda estudos.

Partindo desse princípio se compreende a necessidade de abordar sobre a cultura periférica como sendo uma das mais marginalizadas por décadas, visando que a mesma nunca esteve inclusa na cultura popular e consequentemente na cultura de massa, devido aos preconceitos e repreensões. Diferentemente do que ocorre nos dias atuais.


Para o Poeta Sérgio Vaz, fundador do Sarau da Cooperifa, vanguarda da produção cultural periférica de São Paulo, afirmou para Rede Brasil Atual que ''A grande novidade é que a gente começou a consumir o que a gente produz e não a levar nossa produção para o outro lado da cidade. O que estamos fazendo agora é dando nosso charme, nossa visão sobre as coisas”.



Foto de capa: Reprodução/Pixabay.


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