SLAM DA GUILHERMINA: a poesia na periferia
- 9 de nov. de 2022
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Quando falamos sobre cultura, é indispensável abordar a linguagem como sendo um expoente importante de qualquer esfera cultural, afinal é a linguagem que caracteriza a comunicação, a relação, a convivência, compõe os valores e demarca um território, entre outros aspectos. No mais, na questão de produção cultural, a poesia nasce da linguagem literária, generalizada como texto lírico; é aqui o ponto de partida para tudo. Antecedendo o rap, a poesia falada sempre esteve presente em toda camada social, e possibilitou a vida do RAP, então, antes que pudéssemos agregar o ritmo junto com a poesia, foi necessário que a literatura emergisse dentro das comunidades, e em consequência fosse aplicada como forma de manifesto cultural e de expressão.
O Slam, é o nome dado para batalhas de poesia falada, que se espalham por todo o globo, incluindo nas periferias, onde o número de realizações é maior. Surgindo em 1980, nos Estados Unidos, o primeiro slam foi organizado por Marc Kelly Smith – como dito no documentário, Slam: Voz de levante – cujo alega ter utilizado a lógica da competição como forma de trazer atenção para o texto e performance dos poetas. Resumidamente falando, podemos utilizar como exemplo os Saraus, porém não contamos como figurino, cenário ou instrumento musical. Possui poesias autorais (decoradas ou lidas) de até três minutos. Possui cinco jurados escolhidos aleatoriamente na plateia, que são responsáveis por dar nota de 0 a 10, o participante competitivo que somar mais, é claro, ganha. No Brasil, o slam chegou em 2008, através da artista Roberta Estrela D’alva, no ZAP! Slam (Zona Autônoma da Palavra), na cidade de São Paulo, e consequentemente, o Slam Guilhermina.
Localizado na estação Guilhermina-Esperança, na Vila Guilhermina, o Slam Guilhermina tem como intuito alcançar ‘’a revolução’’, como revela o escritor, gestor, ator, poeta e slammaster, Emerson Alcalde. O notável ambiente tem como referência a luta de pessoas ligadas a causas sociais, raciais, sociais e de gênero. Abaixo você confere a entrevista completa com Emerson.
1) Como funciona para participar?
A pessoa precisa ter três poemas autorais, sendo que cada poema não pode ultrapassar o tempo de 3 minutos, não pode utilizar adereços cênicos, figurinos ou acompanhamento musical.
2) Vocês recebem alguma ajuda de patrocinadores?
Não.
3) Como surgiu a ideia de realizar o Slam?
O slam começou em 1986 em Chicago, nos EUA. E chegou no Brasil no final de 2008. Eu frequentei durante 4 anos este slam, o ZAP! E em 2012 resolvi criar um segundo slam no Brasil. E escolhi a estação Guilhermina-Esperança como ponto estratégico de atingir as pessoas não somente da zona leste, mas de toda a cidade.
4) Qual maior dificuldade em promover um Slam?
Precisa organizar, divulgar, correr atras de apoios e editais para que possa oferecer premiações aos vencedores, além da produção de fotos e vídeos para as redes sociais.
5) Você pode dizer que a periferia adotou uma nova forma de literatura própria através dos slams? uma nova forma de recitar poesia que foge daquele padrão clássico?
Sim. A periferia viu no slam uma possibilidade de expressão popular. Os temas e a forma usada para a criação da poesia que se atualiza a cada momento, os fatos semanais viram texto, e isso aproxima a periferia da poesia, pois ela sabe e tem opinião sobre o que está sendo dito.
6) Você crê que o Slam como sendo um evento, é bem reconhecido tanto pela periferia quanto por quem está fora do nicho?
Ainda não. Temos um alcance expressivo nas redes sociais e atingimos em média 300 a 400 pessoas por evento, mas em se tratando da periferia de São Paulo este número não é tão grande.
7) Geralmente, qual a idade dos mcs ou de quem se aventura a participar dos Slams?
Quem participa de slam é chamado de slammer. E eles tem de 16 a 29 anos.
8) Há dificuldades vinda de alguma forma de preconceito?
Sim, principalmente racial e de gênero. As pessoas pobres também têm preconceitos e não assimilam muito bem o racismo, dizem que é mimimi, ou até mesmo que o racismo não existe, e muita gente que passa pelo evento se incomoda com as narrativas das pessoas LGBTQIA+
9) Como você caracterizaria a linguagem de um Slam feito dentro da periferia?
Quando ocorre na periferia o slam traz temas mais populares e acessíveis, pois as pessoas querem se od3nt8ficar e reagem quando isto ocorre. Os slams de rua se tornam mais políticos e atuam na melhoria de sua comunidade.
10) Como é a sensação de rimar/recitar poesia junto a um ritmo - sendo isso a essência do rap - só que sem o levantamento do beat, de um DJ ou Beatmaker?
A origem da poesia falada antecede o rap. E quem participa não necessariamente é um rapper. As pessoas que participam passam a escrever para falar num slam.
11) Como você convenceria alguém de participar ou assistir? qual argumento usaria?
Venha assistir e presenciar o movimento literário mais potente da atualidade.
Foto de capa: Reprodução/Facebook.


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